Poeta
Álvaro
Alves
de Faria

Canal do poeta

CRAVOS VERMELHOS

E ontem ao chegar a casa esperava-me este belíssimo livro de poemas do meu querido amigo Álvaro Alves de Faria:

Que agora
se revele
a farda
do povo
é a pele.

25 de Abril em pleno. Obrigado querido Álvaro.

Inês Pedrosa,
Romancista portuguesa

REVOLUÇÃO DOS CRAVOS.
O FIM DA DITADURA
DE 48 ANOS EM PORTUGAL

DEPOIMENTO DO POETA
ÁLVARO ALVES DE FARIA

Em Portugal, 25 de abril significa o Dia da Liberdade. O dia em que os cravos vermelhos venceram os fuzis dos soldados e oficiais que saíram às ruas para combater o movimento do povo e, por fim, passaram para o lado dos revoltosos contra a ditadura que começou em 1926. Autoritária, tornou-se fascista com a ascensão de António de Oliveira Salazar, que assumiu em 1932 e mudou a Constituição portuguesa em 1933. Era uma época de grave crise econômica do país, além das guerras de Portugal contra os países colonizados na África, que os próprios oficiais das tropas e a sociedade não aceitavam. Mas chegou o dia 25 de Abril de 1974. Nas ruas, a população pedindo liberdade em manifestações pacíficas. E aí surgiram os cravos vermelhos colocados por mulheres e crianças na ponta dos fuzis. Momento inesquecível para o mundo. Os soldados colocam as armas no chão num grande abraço que fez retornar as liberdades civis e democráticas e a reconquista dos direitos do povo. Um movimento civil-militar que derrubou Marcelo Caetano, que havia sucedido Salazar. Quando o povo canta, o povo está feliz. Eu mesmo tenho um fato familiar da ditadura de Portugal na figura de um tio, preso em Famalicão de Anadia. Faleceu numa prisão em Lisboa. Quando preso, morreu-lhe um filho, ainda menino, 13 anos. A ditadura deu-lhe autorização de comparecer ao enterro, mas teria de ir algemado e sob escolta. Meu tio não aceitou. E não viu o enterro do filho. Deixo de colocar nomes e datas aqui por pedido da família. Algum tempo depois meu pai, Álvaro, nascido em Mobito, Angola, e minha mãe, Lucília, nascida em Anadia, deixaram Portugal, o que me fez nascer no Brasil. Esse era o cenário. Os cravos vermelhos tornaram-se o símbolo da luta, numa alegria contagiante que encantou o mundo ao som da canção “Grândula, Vila Morena”, de Zeca Afonso, um hino à liberdade e à conquista da terra da fraternidade.  Este livro de poemas, “Cravos Vermelhos”, tem o Brasil escondido nas palavras, a esperar seus cravos vermelhos, sempre acuado pelas forças mais retrógadas e corruptas que envolvem toda sua história. Os cravos vermelhos estão sendo plantados contra os inimigos da Pátria que fazem e desfazem sem que nada aconteça a ninguém, falsos líderes da mentira, quase todos envolvidos num conluio indecente. “Cravos Vermelhos” é a contribuição e o respeito de um poeta brasileiro, de família portuguesa, que escreveu o que lhe diz a palavra da liberdade. É preciso dizer não a todas as ditaduras, de esquerda, de direita, de centro. E ainda existem ditaduras com mais de meio século. A pessoa nasce na ditadura e morre na ditadura, não conheceu a vida livre. Há de ser um governo do povo, pelo povo e para o povo. Um dos principais poetas do Romantismo brasileiro, o abolicionista Castro Alves, escreveu que a praça é do povo como o céu é do condor. Que floresçam os cravos vermelhos. Que nos deem a liberdade de dizer e pensar em favor de uma Pátria livre em que o povo possa viver.

COMOÇÃO

Leocádia Regalo,
Poeta e tradutora portuguesa

Li “Cravos Vermelhos” com muita comoção. Como sempre, a sua excelente Poesia a falar. E a escrever uma Revolução que nos deu a liberdade tantos anos almejada. Belíssimos poemas de quem tem nos acompanhado e continua convictamente a lutar pelos valores democráticos, sem autocracias e corrupção.

Capa de “Cravos Vermelhos” lançado em Portugal, realizada pela artista-plástica
Mafalda Maia, da equipe de funcionários da Editora Palimage, de Coimbra.

CANTANDO A ESPERANÇA

Escritor e editor
JORGE FRAGOSO
Editora Palimage, Coimbra

Álvaro Alves de Faria e o escritor e editor da Palimage de Coimbra, Jorge Fragoso.

Num momento indeterminado, algures no tempo próximo deste ano em se comemora o 50º Aniversário do 25 de Abril de 1974, chegou à Palimage a proposta de edição de um livro de poesia – Cravos Vermelhos –  de um Autor brasileiro – Álvaro Alves de Faria.
O Poeta, também ele resistente de primeira linha à ditadura brasileira que durou de 1964 a 1985, sentiu a proximidade da sua condição de militante da Liberdade ao que no 25 de Abril de 1974, em Portugal, deitava por terra uma ditadura fascista de 48 anos.
E 50 Anos depois, escreve um livro em que exorta, logo de início, a que o povo português resista a essa mesma ditadura feita de agravos e silêncios, de prisões e de fome, de encerramento de Portugal ao mundo. Ao mesmo tempo, uma guerra em África ceifava vidas e destinos, uma guerra injusta e sem sentido.
O Poeta vagueia nas suas palavras de beleza lírica por muito anos da ditadura portuguesa sempre cantando a esperança de um povo que quer retomar o País para os braços da libertação da palavra dita – anulando a Censura a toda e qualquer manifestação artística que ousasse a mínima crítica do regime imposto pelos ditadores Salazar e Caetano.
Cai-te nos olhos o brilho do Sol / para veres tua terra como nunca viste.
Só estes dois versos com que inicia o livro, Álvaro Alves de Faria, mesmo do outro lado mar, adivinha, constata com enorme acuidade o sofrimento de um povo que lutava contra a imposição de uma vida rastejando na pobreza, enquanto os grandes capitalistas gozavam o favores de uma política sujeita a eles e para eles construída.
O poemas do Poeta arrasam os tiranos, numa denúncia que, de igual modo no seu país, condenava um povo inteiro à miséria existencial, cultural e política.
Mas Álvaro Alves de Faria incita e encoraja o Povo Português com as suas palavras de resistência activa ao longo de todo o livro.
É uma obra de uma beleza comovente e, ao mesmo tempo de uma clamar pela alegria e pela Liberdade que todo o povo merece e pela Liberdade luta incessantemente.
Portugal está no âmago deste belo livro – Cravos Vermelhos – do qual as citações contra o fascismo e a ditadura poderiam ser imensas.
Mas é um sentimento do conjunto completo das suas palavras que nos leva a pensar e questionar como foi possível que o mando ditatorial de alguns pôde subjugar a vida de tantos, de um povo inteiro durante tanto tempo. Quarenta e oito anos de silêncio / não são quarenta e oito dias, / mas uma vida inteira sem tua palavra, / a que poderás agora dizer.
Página a página, o Poeta transporta-nos, ao mesmo tempo, para uma memória do que foi a História desse quase meio século de ditadura, e para o “outro” meio século de liberdade, de podermos cantar e gritar tudo quanto nos estava na alma, calada à força, e solta depois pela acção do Capitães de Abril de derrubaram um satus quo odioso, numa madrugada de Abril que chamou o Povo para a rua num apoio inequívoco e sem reservas à Revolução dos Cravos, dados por uma mulher do Povo aos soldados que os colocaram nos canos das suas armas.
Finalmente, nessa madrugada, mudou-se completamente a vida de milhões de pessoas, um povo inteiro faminto de ver crescer um futuro risonho de Liberdade e do fim de uma Guerra Colonial que a tantos jovens ceifou a vida – Portugueses e Africanos.
É a este Povo Português que Álvaro Alves de Faria, Poeta brasileiro, combatente da Liberdade e filho de Pais portugueses, presta a sua sentida homenagem.
E foi, para a Palimage, a forma feliz de participar nas múltiplas comemorações dos 50 Anos do 25 de Abril em Portugal.

APELO DRAMÁTICO

Poeta e editora
Thereza Christina Rocque da Motta
Editora Ibis Libris, Rio de Janeiro

Cravos vermelhos, de Álvaro Alves de Faria, contém um apelo dramático por ter sido escrito pelo poeta brasileiro mais familiarizado com a história, a literatura e a cultura portuguesas, além de ser filho de pais nascidos em Portugal. As suas raízes estão inseridas nesse solo e, por isso mesmo, imerso no sentimento de sua pátria ancestral.

Com esse impulso, Álvaro Alves de Faria escreveu os poemas de Cravos vermelhos, que recebi como um clamor, um chamamento ao país de irmãos, que reconstruíram seu sentido histórico, a partir do movimento revolucionário de 25 de abril de 1974.
A Ibis Libris Editora, ao publicar este livro, colocou-se à frente das editoras brasileiras, publicando este registro único sobre a Revolução dos Cravos, e a voz do poeta Álvaro Alves de Faria deu ainda mais valor a este canto.

ZECA AFONSO: A MÚSICA DA REVOLUÇÃO

“Grândola, Vila Morena”, é um poema-canção composta e cantada por Zeca Afonso (Aveiro-1929 – Setúbal-1987) sendo escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) como o sinal definitivo ao tocar no rádio, para colocar os militares revoltosos em marcha, iniciado a Revolução de 25 de Abril, de 1974. Desde cedo, a canção revolucionária se tornou o hino da Revolução dos Cravos, sendo hoje cantada pelo povo até hoje, 50 anos depois.

Grândola, Vila Morena,
Terra da fraternidade,
O povo é quem ordena
Dentro de ti, ó cidade.

Dentro de ti ó cidade,
O povo é quem ordena,
Terra da fraternidade,
Grândola, Vila Morena!

Em cada esquina um amigo,
em cada rosto igualdade,
Grândola, Vila Morena,
Terra da fraternidade.

Terra da fraternidade,
Grândola, Vila Morena,
Em cada rosto igualdade,
O povo é quem mais ordena.

À sombra duma azinheira,
Que já não sabia a idade,
Jurei ter por companheira,
Grândola, a tua vontade.

Grândola, a tua vontade,
Jurei ter por companheira,
À sombra duma azinheira,
Que já não sabia a idade!

Grândola, Vila Morena

Zeca Afonso - Grândola, Vila Morena - YouTube

POEMAS

1

Não fique o povo
a esperar sempre
esse dia que nunca chega,
essa espera de todo dia
em que o fim
dessa espera
um dia despertará.

Que não fique o povo
à espera do que não vem,
essa promessa de sempre
que nunca se cumpre.

Não fique esse povo
com as mãos cortadas nos pulsos,
seja o contrário do contrário,
o que não se compreende mais,
o que passa do tempo
guardado nos relógios,
o contrário do contrário,
onde a navalha afunda a lâmina
e traz o povo para rua,
no silêncio das calçadas
marcando os minutos de cada minuto,
a hora de cada hora,
o dia de cada dia.

É preciso calar todas as palavras
e fazer com que se calem nos gabinetes
ou se enforquem nas gravatas,
porque o tempo já passou
e a espera não espera mais.

Eles esquecem o povo
que calado permanece esquecido
a esperar por esse tempo
o que sempre lhe é devido.

O que do povo se tira
ao povo deve ser devolvido.
para que seja a vida mais serena,
a vida é o povo quem move,
o povo é quem mais ordena.

 

2

Toma teu copo de água
e bebe à tua sede
essa que escondeste sem poder dizer,
toma toda a água e diz agora o que nunca disseste
e quando tentaste amarraram-te as mãos
e na boca colaram-te uma mordaça
que tuas palavras morreram
e nunca mais quiseste ver o entardecer,
nem nunca mais caminhaste teu caminho
pensando ser livre
se livre não eras.

Mas chega a hora
em que o entardecer se atira
no abismo que deixa a marca do sempre,
essa que escurece na pele a bala que mata,
o fuzil que se ergue e atira.

Então o povo fecha a porta,
a vida já não é nada
senão o espaço que se fecha
no que não é mais.

Sempre chega esse dia em que os que mandam
na tua vida deixarão de mandar,
porque o povo se faz ouvir
e pára os tanques nas ruas
e cala os fuzis.

A princípio não compreendes.
mas ao tomares tua água
por direito de teu suor,
acordarás em ti mesmo
e saberás que o tempo é outro,
porque mandarás na tua vida
para viver como quiseres,
andarás com teu filho e tua mulher,
a saber que as praças estão livres
para dizer a ti mesmo
que o país está vivo a te pertencer.

 

3

Cai-te nos olhos o brilho do Sol
para veres tua terra como nunca viste.
Quarenta e oito anos de silêncio
não são quarenta e oito dias,
mas uma vida inteira sem tua palavra,
a que poderás agora dizer.

Os tiranos passam,
não duram para sempre,
mas a Pátria fica porque pertence ao povo
que nela ergue a vida,
o povo das aldeias, das vilas, das cidades.

Cai-te nos olhos o brilho do Sol
para que vejas melhor como nunca viste,
e sintas
como nunca nada sentiste.

 

7

O povo sempre haverá de cantar
nos entardeceres
porque os entardeceres
ao povo pertencem
como pertence ao povo
a Pátria ferida
e haverá de ser da Pátria
e a liberdade de voar.

Guarda a espada
que tens no peito
e parte na pedra,
depois atravessa lado a lado
o corpo de teu inimigo
e deixa a seguir
que a vida aconteça,
mas nunca deixes
que nada se esqueça.

 

8

Depois a liberdade entra no quarto
quando abrires a janela
para ver os amigos nas ruas.

Depois olha a liberdade de asas abertas,
essa liberdade que voa sobre os telhados das casas
a observar a mulher tirando água do poço
com a corda gasta no tempo
e o balde que guarda as histórias.

Depois abre a casa quando clarear o dia
e deixa que tua chuva regue a tua horta.

Depois chama a liberdade para tomar café à mesa
e com ela no teu quintal
te digas um homem livre.

Depois será preciso defendê-la sempre,
a saber que cuidar dessa liberdade vale a vida
e o preço que a vida tem.

Depois bendigas a vida por viver
no teu trabalho de todos os dias
para colher o que plantaste.

 

18

Um cravo vermelho na ponta do fuzil
é um poema
como um cravo vermelho na ponta do fuzil.

Assim como se estivesse nascendo uma flor
no lugar da pólvora e da bala
a decorar as ruas todas entre os tanques
e os soldados com uma ordem a cumprir.

Dentro das armas que matam,
olham-se fardados
com a missão de fazer o sangue correr,
sentem os dedos trêmulos junto aos gatilhos,
os tanques parados diante do povo
que ali espera a Nação livre.

Nada a dizer
nada a escrever
nada a cantar.

Homens tristes, as mulheres portuguesas,
mulheres tristes, as crianças das aldeias.
até que o cravo
fechou a boca das armas
como o vermelho da música do  povo.

O cravo vermelho a fazer o país se libertar,
a abraçar a liberdade,
assim abraça a vida
no sempre do agora,
o sempre que sopra
pelos oceanos as águas em que lavas
as feridas abertas.

 

23

É tempo de abrir a janela,
abrir um novo tempo:
o abril se abriu.

Há lá fora um vento forte
batendo nas portas antes fechadas,
agora abertas para as ruas e as praças.

O tiro que não era,
o tiro que não foi,
o tiro que não dera
tão longe desse espanto,
na alegria da tua vida
cantada no teu canto,
assim como a memória fez,
a canção do povo
no canto português.

A alma é pequena,
mas sempre valerá a pena,
foram-se as embarcações naufragadas,
o mar é grande,
mas pequeno ainda para viver
as vidas no silêncio mergulhadas.

Vale a pena viver,
viver vale a pena,
essa face cheia de marcas,
rude a sina vivida,
rude a mão que agride e atira e fere,
tão rude caminho seguido,
a tez riscada no rosto,
a que está na fachada dos prédios,
agora livre dos infortúnios
a começar tudo de novo.

 

26

A canção que anuncia o novo tempo,
essa que canta o povo nas ruas,
na voz das moças nas tunas como um soluço
e nas cordas as guitarras
na hora dos que morreram aflitos
aflitas palavras aflito aceno
a planta aflita que chora
aflitas fitas da universidade
o afeto que prende o afeto
na trama dos anos desfeito.

Na voz das das mulheres de xales
a cobrir os ombros,
o tempo não espera mais
porque tem de ser agora,
o instante que chega
a marcar a hora.

Eis a tropa em cavalos
para afastar os que cansaram
e querem plantar outros destinos
para ganhar o tempo que se perdeu
obedientes às ordens
dos invasores do poder.

Mas quem ordena é o povo
que constrói as casas, os quintais,
as ruas, as praças, as igrejas,
que lapidam as pedras
para os anéis dos nobres.

Não espera pela volta do tempo
porque os relógios foram destruídos
e os pulsos se fecharam na dor do instante
como a cabeça a desfazer-se
num sonho livre que nunca existiu.

O tempo que se parte
no rancor das peras que caem,
esse gosto amargo
que se carrega na boca,
esse corte que se abre
no rosto marcado.

O povo tem o que tem por direito
o que lhe foi sempre perdido,
fez-se o que tinha de ser feito,
a terra da fraternidade
a bater dentro do peito.

 

35

Chega sempre o dia em que o povo cobra
o que deixou de viver o que lhe cabia,
passou a vida em silêncio
sem nunca ouvir a palavra Democracia
ou sentir o gosto de ser livre.

Deem-me de volta o que tenho por direito,
o que perdi por não poder sequer pensar,
quero de volta o que às vezes sonhava.

Quero de volta minha palavra,
a que não disse por que tive medo,
por mais não ter quero de volta
todas as palavras que deixei de dizer.

Chega sempre o dia em que o povo
exige de volta sua dignidade,
que os tempos agora são ouros,
ontem foi outro dia
e hoje é o amanhã
nesse voo livre.

As manhãs de Portugal
são diferentes de outras manhãs,
assim como sempre a cumprir
o tempo do que se liberta,
a nova terra a descobrir.

Quando se inflamam as palavras…

Álvaro Cardoso Gomes,
Ensaísta e romancista

Por convenção simbólica e, por extensão, poética, sabe-se que a cor vermelha é fundamental para expressar as grandes paixões, sejam as do coração ou as dos ímpetos revolucionários. Isto porque tal cor está ligada ao sangue, ao fogo, forças vitais da Natureza e/ou do homem, que o impulsionam para a manifestação dos sentimentos intensos, como o amor, os ímpetos revolucionários e a integração solidária do homem com a Humanidade.

Nesse sentido, é bem apropriado Álvaro Alves de Faria, como poeta inspirado que é, intitular de Cravos Vermelhos este seu livro, que tem por escopo poetizar um dos fatos mais dramáticos da história portuguesa contemporânea, a da chamada “Revolução dos Cravos”, ocorrida em 25 de abril de 1974. Na ocasião, revoltado com a opressão do Estado, durante o (des)governo de Marcelo Caetano, imposto pelas elites, para substituir o senil ditador António de Oliveira Salazar, o povo empreendeu uma jornada de protestos nunca vistas antes no país.

Como marca simbólica dessa revolta, eternizou-se, em Portugal, a imagem dos cravos vermelhos, que a população achou por bem enfiar no cano dos fuzis dos militares, para impedi-los de participar de mais um ato de agressão contra ela. Verificou-se então um fato de proporções e consequências extraordinárias. Depondo as armas, os militares solidarizaram-se com os anseios do povo, ajudando com isso a derrubar um governo despótico, que começara em 1926. O resto então é História – como num castelo de cartas, cai a ditadura em Portugal, e as chamadas “colônias do Além-Mar” tornam-se independentes.

Ao querer eternizar em palavras esse marco histórico fundamental de Portugal, Álvaro Alves de Faria enfrentou um grande desafio, na medida em que deveria necessariamente expressar-se por meio de uma poesia que denominaríamos, na falta de melhor termo, de “protesto”, em que as imagens poéticas estariam a serviço, de maneira deliberada, de uma ideia pré-concebida. O poeta opta, portanto, por um tipo de poesia, em que o verbo é articulado, tendo em vista uma causa revolucionária – a eclosão de um momento epifânico, em que o povo português busca assumir seu protagonismo histórico, frente aos desmandos do autoritarismo. No caso, as palavras visam a comemorar a chamada “Revolução dos Cravos”, em que as frágeis flores assumem um extraordinário relevo frente à bestialidade das armas de fogo, a ponto de serem capazes de deflagar um movimento revolucionário de grandes proporções e que contribuiria significativamente para a formatação do Portugal moderno – um país democrático, em que os direitos humanos são amplamente respeitados.

Podemos chamar essa concepção de literatura, de acordo com o crítico norte-americano M. H. Abrams, autor de O Espelho e a Lâmpada, de pragmática, no sentido de que “a obra artística, assim imaginada, vê a arte principalmente como um meio para um fim, como instrumento para conseguir que se faça algo, e tende a julgar seu valor caso tenha êxito para realizar esse propósito”. Obras dessa espécie procuram equilibrar o belo e o útil, no sentido de que a beleza oferecida aos olhos e ouvidos serve de atração, para que se lance às consciências um determinado valor moral. Em Cravos Vermelhos, esse valor ético é identificado com a crítica à tirania, à ditadura e com a resistência à arbitrariedade.

Como resultado disso, o discurso exaltado do poeta emprega, via de regra, palavras transparentes que, hiperbolicamente, se tornam ígneas, no sentido de difundir, de maneira altissonante, moções de protesto, o que é verificável também na carga semântica disseminada por todo o livro – “povo”, “liberdade”, “livre”, “poder”, “vida”, “luta”, “bandeira”, “vermelho”, etc. A fala do sujeito da enunciação, similar a dos profetas, contamina-se de alta emoção, visando com isso a libertar o ouvinte/leitor do marasmo, sinônimo de alienação, de alheamento, em face da realidade conturbada.

O melhor exemplo dessa tendência em Álvaro Alves de Faria encontra-se no poema de número 21:

Vive agora, não lamentes,
para tudo, nada é tarde,
sai de ti e te inventes
a palavra LIVRERDADE.

O poeta assume essa postura de aedo iluminado diante do destinatário, um “tu” anônimo, que necessita apenas de um sopro, para que desperte do sono comatoso e alienante. Daí o uso do imperativo, como uma forma de abrir consciências para uma realidade, identificada pelo neologismo, que resulta da fusão das palavras “livre” e “liberdade”, em que o adjetivo e o substantivo irmanam-se para cunhar um termo que só tem vez dentro do poema e, como tal, acentua sua absoluta representatividade, conquistada quando o ser sai afinal de dentro de si, graças à entonação revolucionária da voz poética.

Isto faz que o poeta se torne uma entidade solar, capaz de, com sua força ígnea, transformar a realidade. No poema de número 3, mais uma vez, dirige-se ele ao leitor e/ou ouvinte, para lhe fornecer a oportunidade de uma descoberta:

Cai-te nos olhos o brilho do Sol
para que vejas melhor como nunca viste,
e sintas
como nunca nada sentiste.

Contudo, este discurso claro, transparente de Álvaro Alves de Faria, não é regra absoluta no livro, na medida em que ele coexiste com um outro, de caráter opaco, no sentido de que o poeta se deixa levar também pelas modulações do canto, pela musicalidade, como acontece no poema 17:

Fazes-te florir como florem as flores,
assim ao vento dos dias,
como florem os ventos da flora
e nem percebem,
assim a florir esse mundo que guardas
olhando as vitrines das docerias
e as livrarias um livro
que ainda não foi escrito.

A acentuar o ato irracional da criação, o poeta o compara ao do nascimento contínuo das flores, representado pela aliteração em “fl”, que  faz que o discurso se torne propositadamente redundante, a lembrar, por acaso, os belos versos de Eugénio de Castro, simbolista português:

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse…
o sol, o celestial girassol, esmorece…
e as cantilenas de serenos sons amenos
fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos…

Nos versos musicalizados, tanto de Eugénio de Castro quanto de Álvaro Alves de Faria, a redundância faz que o leitor, numa primeira instância, seja atraído mais pelo som do que pelo sentido. A partir daí, o ato poético, natural em sua espontaneidade, deflagra um processo de construção, em que há o predomínio das contínuas sensações, graças à lembrança dos doces nas vitrines e da imagem de um livro ainda não escrito, o que implicará a insistência no ato criativo do poeta, visando a despertar consciências:

Fazes-te mais do que a flor que flore
e deixa que faça o vento a sua parte,
como quem chega de repente,
vê a tarde na sala e fala em partir,
assim como as flores que flores
no novo tempo do vento a florir.

O poeta imprime ao discurso poético um novo sopro, impedindo-o que se torne apenas um flatus vocis ou um mero panfleto, graças à perfeita integração entre o som e o sentido. Como no exemplo acima, os poemas caracterizam-se, ao mesmo tempo, por uma voz lírica, modulada, capaz de explorar no discurso camadas sonoras de grande efeito poético e por uma voz inflamada, de arauto, que procura tirar os ouvintes do marasmo, ao lhes recordar os eventos que marcaram Portugal para sempre.

Em suma, mais uma vez, Álvaro Alves de Faria, dá demonstrações de um talento único, exemplar, ajudando as consciências a despertarem para um grande acontecimento histórico, por meio de uma fala incandescente e impregnada de musicalidade. O que não é pouco, ainda mais se considerarmos a aridez intelectual deste nosso tempo de trevas, opressão e maus poemas.

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